quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Era tripulante, passava a vida a voar...

Tem cabelos ruivos, apertados no cimo da cabeça. Olhos grandes, rasgados e curiosos, de tom azul. Usa um vestido às listas vermelhas e beges. Foi durante muito tempo a boneca favorita da Joana. A única que tinha um nome: Sofia. O pai tinha-lha trazido de uma das suas viagens à Alemanha. Outros tantos brinquedos seguiram-se – era tripulante, passava a vida a voar –, mas Sofia era especial. 
Um dia, o pai disse à Joana e aos seus primos algo que iria mudar a vida daquela boneca. Explicou-lhes que havia muitos meninos, em Portugal e no resto do mundo, que não tinham com que brincar. E que eles deviam ajudá-los doando os brinquedos que já não queriam.
Com uma lágrima a verter dos olhos, Joana agarra na pequena Sofia e entrega-a ao pai. Ele faz o que já tinha feito com tantos outros brinquedos, roupas e até com os produtos de higiene (sabonetes, champôs) que trazia dos hotéis onde ficava a dormir. 
Sem saber o que estava a acontecer, Sofia vai parar ao Sindicato do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC), onde está um dos pontos de recolha de donativos da Take C’Air, uma plataforma de voluntariado que nasceu graças à iniciativa de pessoas ligadas à aviação. Ali fica, vários dias, sem perceber como a Joana tinha tido coragem de a abandonar assim, estando ela ainda tão bem conservada. Pensava que era a sua melhor amiga...
Os sacos e caixotes amontoam-se, de vez em quando vai uma senhora fardada buscar, mas Sofia vai ficando para trás. Até que, um dia, chega a sua vez. Quando dá conta, está numa garagem em Linda-a-Velha. 
Umas mãos agarram-na no fundo do saco e colocam-na numa estante. Confusa e aterrorizada, olha à volta, tentando perceber onde está e o que tencionam fazer com ela. A vista é privilegiada. Caixotes e sacos por todo o lado, a serem remexidos por várias pessoas, numa azáfama total. De onde em onde, há etiquetas a dizer “Take C’Air” e papéis a assinalar “Luanda”, “Praia” ou “Maputo”. Calças, blusas, casacos e meias vão saltando das caixas. Uma das pessoas está sentada no chão a emparelhar sapatos, enquanto outra remexe os sacos cheios de livros e brinquedos. Sofia ouve-os a falar, mas não entende nada. “Onde coloco as coisas para os sem-abrigo?”. “É ali!”. “Onde estão as etiquetas para a Praia?”. “Acolá!”, "Achas que isto dá para a Dress?".
De repente, volta a sentir medo, é agarrada. Vai parar dentro de um saco de plástico, juntamente com umas calças, umas havaianas e um livro de colorir. É colocado um papel a dizer o destino, mas Sofia não consegue ver qual é. 
Quando dá conta, está novamente na bagageira de um carro, e tem ao lado vários sacos iguais ao seu, cheios de roupa, brinquedos e sapatos. “É o fim”, pensa, lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto, antecipando um qualquer caixote de lixo industrial como destino. Mal ela sabe que a aventura ainda nem começou.
Quando a mala do carro é aberta, dias depois, Sofia vê uma mulher fardada. Acabou de chegar ao Terminal de Tripulações do Aeroporto de Lisboa. O saco onde está é passado no raio-X e, de seguida, colocado numa prateleira onde se acumulam mais sacos. Dias a fio, Sofia vê pessoas fardadas a entrar e a sair do terminal, a passar o controlo de segurança e a seguir para os aviões. Pensa que vai ficar ali para sempre. Volta e meia, alguém agarra um saco, mete-o dentro de uma mala grande preta e sai também. Mas ninguém parece reparar na boneca ruiva, de sardas e olhos verdes. Até que, um dia, um rapaz agarra nela e nos seus companheiros, e mete-os na mala.

Passam-se várias horas. Sofia continua prisioneira, abafada dentro da bagagem. Consegue ouvir o som dos trolleys a abrir e a fechar, o tlim das campainhas, as conversas sobre aviação. E o discurso a anunciar a chegada a São Tomé e Príncipe. De repente, tudo cessa. 















Texto by Rita Faria




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